Com a evolução dos processos, uma nova tecnologia que surgiu há mais de 10 anos volta à tona: a retícula estocástica ou FM. Os beneficiados são as gráficas focadas em impressos que exigem alta qualidade, que lançam mão desse recurso como um diferencial bastante tangível

Lançada em 1993, a retícula estocástica prometia revolucionar a indústria gráfica graças a um sistema aleatório de distribuição de pontos, sem ângulo de inclinação ou rosetas. No Brasil, ganhou projeção pelas mãos do consultor norte-americano Mills Davis, então à frente do projeto HiFi Color, cujos patrocinadores incluíam nomes como a Apple, DuPont, Kodak, Pantone e Scitex. Tal projeto, trazido ao Brasil pela ABTG, sob a coordenação de Fernando Pini, destinava-se ao desenvolvimento de novos projetos para a obtenção de cores de alto impacto e elevado valor agregado, tinha como base a impressão através da retícula estocástica justamente por possibilitar a reprodução superior de tons e detalhes.

Contudo, por maior que tenha sido o empenho de fornecedores e técnicos, a tecnologia não vingou por várias razões que, simplificadas, desembocam na inadequação dos sistemas dos quais a retícula estocástica dependia. Embora algumas gráficas do exterior tenham alcançado sucesso na sua implantação, o sistema não se popularizou por uma série de problemas, entre eles o fato de que  a maioria das gráficas ainda não era capaz de monitorar seus processos de forma a deixar o sistema vantajoso. Outra dificuldade era conseguir transferir o ponto, muito pequeno, com clareza, assim como era raros os sistemas de prova habilitados a reproduzi-los satisfatoriamente. “Na época do filme, usar a retícula estocástica exigia cuidado extremo para que o trabalho surtisse o efeito desejado. Com a chegada do CtP e do gerenciamento de cores, a utilização foi facilitada”, conta Lourenço Amato, diretor de operações da Pancrom.

Com o advento da tecnologia da computerto-plate, muitos desses obstáculos foram de alguma maneira transpostos. As chapas trabalham com pontos de primeira geração e são capazes de suportar os pontos de tamanho diminuto requeridos pela retícula estocástica. O software que gera a retícula foi aprimorado, assim como os sistemas de prova – incluindo a tecnologia inkjet – avançaram ao nível de serem aceitos amplamente tanto no caso da retícula convencional quanto da estocástica.

A principal vantagem da estocástica ou FM (sigla para Frequency Modulated) está relacionada à sobreposição de cores, com a eliminação do indesejável moiré provocado pela retícula convencional ou AM (Amplitude Modification) especialmente em projetos que reproduzam padrões regulares, como os tecidos. “O retorno de qualidade é inegável e um dos principais benefícios é a extinção do risco de distorções como o moiré”, defende Lourenço Amato. Estão igualmente entre as vantagens a melhor estabilidade tonal e a reprodução com qualidade fotográfica, através de dégradés mais suaves, tons de pele mais naturais e maior riqueza de detalhes.

Para Osvaldo Cristo, gerente de pré-impressão da Heidelberg para a América Latina, grande avanço também é a possibilidade de preservar os detalhes graças à variação na freqüência dos pontos e não no seu tamanho. “A retícula FM tem permitido a impressão de um intervalo de cores mais amplo, empregando mais de quatro separações, o que seria praticamente impossível com a retícula convencional.” O consultor técnico da Creo/Alphaprint, Danilo Eskenazi, vê a tecnologia sob um outro ângulo: como um diferencial dentro do mercado competitivo. “Quanto mais a gráfica conseguir se destacar dos concorrentes por meio de produtos diferenciados, mais à frente ela estará.

Fornecedores e gráficas concordam quanto à importância do gerenciamento do fluxo de trabalho, uma vez que qualquer alteração em uma das variáveis pode causar distorções na qualidade final do trabalho. “Como em qualquer tipo de impressão, o controle do processo é o item mais importante para garantir bons resultados”, define Danilo Eskenazi.  Para Marcelo Pimentel, gerente de Produto da CtP da Lüscher/Gutenberg, certamente a opção pela tecnologia terá sucesso se a tríade sólido conhecimento de pré-impressão, alta qualidade de consumíveis e papel de excelente qualidade for considerada. Ele sugere um monitoramento rígido do processo de linearização, bem como a realização de testes com diversos fornecedores de tintas, blanquetas, papéis e outros insumos. “Na impressora, é importante observar o equilíbrio molha e tinta, controle de pH e ajuste de pressão entre a chapa e a blanqueta, além de contar com a experiência de um bom impressor.

Utilizando a retícula estocástica há cerca de um ano, Celso Lund, da gráfica carioca Nova Brasília, afirma ter realizado vários acertos para obter resultados positivos. “Temos de3 nos certificar da estabilidade do processo, com fidelidade de gravação, boa limpeza e equipamento bem calibrado, dentre outros itens. Criamos um controle de procedimentos para garantir esses ajustes.” Segundo ele, entretanto, o uso da retícula FM
Depende da demanda. “Os trabalhos são realizados de acordo com as necessidades do cliente.

Quando usar

Por suas próprias características, a retícula FM tem sido empregada na produção de impresso que exigem alta qualidade. Jânio Coelho, gerente geral Rio de Janeiro, da Esko-Graphics/IPP defende o uso quando existe a necessidade de trabalhar com mais  de quatro cores, por exemplo, em hexacrome ou com tintas de alta pigmentação. Apesar de poder ser aplicada em qualquer tipo de impresso, as embalagens têm sido as maiores beneficiadas. “Qualquer representação com muitas tramas requer essa tecnologia para que o impresso não sofra mudanças de tonalidade”, defende Celso Lund. Para ele, o maior cliente é a indústria de higiene e beleza, com o que concorda o diretor da Pancrom. Hoje usamos mais a estocástica para itens da indústria cosmética, catálogos de pisos, reproduções têxteis e outros trabalhos mais detalhados.

A solicitação do mercado é questão crucial, como comenta Marcos Agueda, diretor de Operações da Quebecor World Recife. A unidade não adotou a retícula estocástica pela falta de demanda. “Fizemos testes de impressão, mas decidimos continuar utilizando o método convencional porque nossos clientes não manifestaram interesse pela troca. Como o investimento para a compra do software seria muito alto, não estamos usando retículas diferenciadas atualmente.” Segundo Marcelo Pimentel, o custo do software necessário para a geração de arquivos digitais com retícula FM situa-se na faixa entre US$ 6 a 12 mil, sem contar a mão-de-obra para a calibração, que deve ser executada por bons profissionais. “O custo real está em desenvolver um controle de processo efetivo e garantir que as impressoras estejam na faixa adequada de monitoramento”, comenta Osvaldo Cristo.

A estabilidade traz, consigo, a rapidez. “Imprimimos recentemente um catálogo para a Coca-Cola, com aproximadamente 300 páginas em apenas três dias”, exemplifica Celso Lund. Eles ponderam, entretanto, que a qualidade também depende do cliente. “Ele tem de nos fornecer o material adequado, com imagens em excelente resolução.

Essas observações mostram que a implementação da retícula esconde desafios significativos. Ao nível mais simples, não é qualquer sistema de gravação direta de chapas que consegue gerar pontos de retícula estocástica de forma efetiva e constante. Justamente por permitir um ambiente mais equilibrado, o CtP térmico vem se revelando como a melhor solução. Segundo Danilo Eskenazi, a tecnologia térmica apresenta menos variáveis no processo de gravação da chapa, como controle de ganho de ponto, potência de laser e tempo de exposição.

O fato é que a gráfica precisa estar preparada para essa tecnologia. A retícula estocástica requer controles muito mais apurados; o grau de tolerância é muito menor e, como conseqüência, o quesito consistência é particularmente importante. Outra área que requer monitoramento rigoroso é o uso dos químicos: a retícula FM é muito sensível a qualquer instabilidade no processo químico de desenvolvimento com da chapa.

O que há de novo

Para minimizar o impacto de uma tecnologia tão sensível a variações de processo, os fornecedores têm investido em retículas híbridas. Segundo Pimentel, o uso da híbrida é, sem dúvida, um grande avanço, pois em arquivos mistos, com chapas e imagens, o resultado é superior. “A reprodução do tom de pele, que é muito difícil de acertar, fica mais simples de ser reproduzido.

Nesse sentido, a Creo dispõe de uma retícula híbrida, a Maxtone, para o mercado da flexografia, com a finalidade de solucionar problemas específicos desse segmento, Na Drupa 2004, a empresa lançou o sistema Spotless, que é a combinação da retícula estocástica Creo Staccato – disponível no mercado nacional há mais de dois anos – mais seis cores e perfis de cor, alcançando resultado de reprodução de aproximadamente 90% da escala Pantone.

Já a Agfa chegou a analisar a possibilidade de trabalhar com um mix das duas retículas, mas acabou optando pela tecnologia XM (Cross Modulated), lançando em 2003 a retícula Sublima. Desenvolvida nas lineaturas 210 a 340 Ipi, a Sublima, de acordo com o fabricante, aproveita o que as retículas AM e Fm têm de melhor, gerando chapas com acerto em máquinas mais simples. O supervisor de pré-impressão da gráfica paulista Gama, André Luiz Teixeira, utiliza essa retícula desde outubro de 2003. Ele conta que o novo sistema trouxe ganho de qualidade, sem a necessidade de fazer ajustes no processo. “Usamos em todo o fluxo, independentemente do tipo de trabalho. Ela oferece excelente definição, muita próxima da qualidade fotográfica.” Além da Sublima, a Agfa oferece ao mercado nacional a retícula Cristal Raster desde 2000.

Na Heidelberg, a novidade é a Satin Screening, parte da nova geração de tramas estocásticas da empresa. “O maior diferencial é a capacidade de produzir uma distribuição de pontos verdadeiramente aleatória, afim de evitar qualquer tipo de padrão perceptível na impressão”, revela Osvaldo Cristo. A empresa também vem apostando nas soluções híbridas, pois, de acordo com o gerente alguns clientes se sentem mais a confortáveis trabalhando com algo mais conhecido e sob controle.

COMO FUNCIONA

Diferentemente do processo convencional, no qual os pontos obedecem à ângulos predeterminados de acordo com a cor, a retícula estocástica distribuiu os pontos aleatoriamente, por meio de sofisticados algarismos. Na trama AM, pontos maiores originam valores tonais mais altos ou  mais saturados, enquanto os menores são utilizados para valores mais baixos. Os pontos são dispostos em uma grade fixa, e as tintas CMYK são aplicadas através de tramas com angulação específica, criando a ilusão de uma gama contínua de cores.
A retícula estocástica (adjetivo que no dicionário Houaiss refere-se a algo que depende ou resulta de uma variável aleatória), por outro lado, usa pontos menores, cujo tamanho não varia, podendo medir entre 14 a 21 mícrons, o que, no sistema tradicional eqüivale a um ponto de 1%. Para se Ter uma comparação real do tamanho reduzido dos pontos, basta considerar que um fio de cabelo humano mede cerca de 60 mícrons. Atualmente, existem tramas estocásticas nas quais o tamanho do ponto também varia, podendo chegar a medidas inimagináveis de até cinco mícrons, especialmente desenvolvidas para impressos de segurança, que imprimem em alta 5.000 dpi.

Fonte: http://www.abtg.org.br

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Adoro produção gráfica, nasci brincando em gráfica e descidi compartilhar essas coisas, existem tantas coisas tontas que mostram a vida de todo mundo, e porque não mostrar meus gostos?

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